Por que privatizar?

Desde 2008, a Cedae passou a dar lucro, distribuindo dividendos para o estado e captando investimentos

por Alcione Duarte

Se apenas a obra de melhorias de abastecimento da Baixada está orçada em R$ 3,4 bilhões, quanto será que custou do dinheiro do povo tudo o que o saneamento construiu, em todo o estado, ao longo de quase dois séculos? O dinheiro que a Corte portuguesa utilizou para as primeiras grandes obras de saneamento foi do povo brasileiro, e, de lá para cá, tudo foi custeado com o nosso dinheiro: da maior Estação de Tratamento de Água do mundo (Guandu, que está no Guinness) à maior estação de bombeamento de água potável do mundo (Lameirão). Se fossem construídas hoje, elas custariam R$ 15 bilhões! Ainda temos reservatórios, represas, tubulações, estações de tratamento de esgotos, emissários… Na cabeça deles, tudo isto valeria somente R$ 4 bilhões! “Um negócio da China”, ou melhor, para a China, ou, até quem sabe, para alguma empresa que esteja na investigação da Lava-Jato.

A venda da Cedae é usurpação pelo governo federal! Há uma pressão equivocada! Uma empresa que pertence ao povo fluminense não para por aí, no patrimônio material! Existe uma perda irreparável: a retirada da nossa possibilidade de influir através de governantes e representantes. Para que servirão vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores? No passado, a população, deputados, prefeitos e vereadores usaram seus mandatos para garantir esta conquista, por se tratar de um bem público. Se fosse uma empresa privada, que força a população e seus representantes teriam para influir nas decisões?

Será que uma empresa privada cobraria R$ 2,71 por cada mil litros de água tratada?

Privatizou-se a RFFSA (Flumitrens), que virou SuperVia e hoje recolhe o dinheiro das passagens, mas é o estado que compra os trens e assume suas dívidas. O mesmo aconteceu com o metrô, em que o estado faz as novas linhas e compra os vagões. Assim é muito fácil, pois só o que fica privado é “a bilheteria”, ou seja, a arrecadação.

Na Zona Oeste, a Foz Águas, contratada pela prefeitura, vem cortando água de escolas estaduais (pasmem!), sendo o estado o real produtor e distribuidor da água!

No passado, os argumentos para privatizar a Cedae eram que ela era deficitária e onerava os cofres públicos estaduais! Qual será a razão agora, já que, desde 2008, a Cedae passou a ser lucrativa, distribuindo dividendos para o governo do estado, captando investimentos com seu balanço contábil, como os R$ 3,4 bilhões de reais para melhor abastecer a Baixada, chegando a atingir o notável Rating de AA da Standard & Poor’s?

No fim de tudo, vende-se barato o que muito custou do dinheiro público, e que, ao invés de gerar déficit, gera superávit, não se garante qualidade, as tarifas aumentam, os investimentos são reduzidos ou deixam de existir e, depois, o povo é cobrado de novo para custear qualquer problema ou incompetência da gestão privada. Imaginem essa “lógica” com um item de saúde (ou doença) como a água que se bebe.

*Alcione Duarte é ex-diretor e técnico de saneamento da Cedae

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